A modernização do agronegócio brasileiro está mudando também a forma como produtores financiam suas operações. Máquinas mais sofisticadas, agricultura de precisão, biotecnologia, irrigação, armazenagem e sistemas digitais elevaram o volume de capital necessário dentro da porteira e começaram a pressionar os limites do crédito rural tradicional. Para médios e grandes produtores, o Plano Safra…
A modernização do agronegócio brasileiro está mudando também a forma como produtores financiam suas operações. Máquinas mais sofisticadas, agricultura de precisão, biotecnologia, irrigação, armazenagem e sistemas digitais elevaram o volume de capital necessário dentro da porteira e começaram a pressionar os limites do crédito rural tradicional.
Para médios e grandes produtores, o Plano Safra e as linhas subsidiadas continuam relevantes, mas já não conseguem atender sozinhos a demanda financeira exigida pelo novo ciclo tecnológico do agro. Nesse cenário, instrumentos do mercado de capitais, como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), passaram a ocupar posição central nas estratégias de financiamento do setor.
Segundo o advogado André Aidar, doutor e mestre em Agronegócio e especialista em Análise Econômica do Direito, o produtor rural vive uma mudança estrutural na relação com o crédito. “A leitura estratégica é simples: o Plano Safra continua relevante, mas deixou de ser suficiente para financiar o salto tecnológico que o agro exige. O crédito subsidiado não entrega a velocidade e a flexibilidade necessárias”, afirma.
Na prática, o acesso ao mercado financeiro exige uma transformação na forma como a propriedade rural é organizada e apresentada aos investidores. O produtor deixa de ser analisado apenas pela capacidade produtiva da fazenda e passa a ser avaliado como uma empresa. “O ponto crítico é mudar a mentalidade: sair da lógica de tomador de crédito bancário para a de gestor de passivos e estruturador de funding. Quem fizer essa transição primeiro tende a capturar ganho de produtividade e competitividade”, ressalta Aidar.
Governança e transparência entram no centro das operações
Diferentemente das operações tradicionais de crédito rural, o acesso a Fiagros, securitizações e fundos de investimento exige níveis mais elevados de organização financeira, jurídica e operacional.
Entre os principais requisitos apontados pelo especialista estão estruturação societária, controles internos, demonstrações financeiras confiáveis, regularidade ambiental e rastreabilidade das operações.
Segundo Aidar, produtores que buscam esse tipo de captação precisam profissionalizar a gestão da atividade rural. “A fazenda passa a ser enxergada como organização econômica. Questões como CAR regularizado, licenciamento ambiental, contratos padronizados e compliance já pesam tanto quanto produtividade e patrimônio”, explica.
Nesse processo, cresce também o uso de holdings rurais para separar patrimônio pessoal da atividade produtiva, reduzindo riscos jurídicos e organizando melhor a estrutura empresarial da fazenda.
O especialista destaca ainda que contratos de fornecimento, arrendamento, barter e financiamento passaram a exigir maior rigor técnico diante da participação crescente de investidores institucionais e estrangeiros.
Risco jurídico ganha peso nas operações
Apesar do aumento da oferta de recursos privados para o agro, Aidar alerta que muitos produtores ainda entram nesse mercado sem compreender integralmente os riscos envolvidos nas estruturas financeiras.
Segundo ele, o principal problema não é necessariamente a falta de crédito, mas a distribuição inadequada das garantias e obrigações contratuais. “Ao acessar o mercado de capitais, o produtor frequentemente vincula garantias robustas sem perceber os riscos críticos”, pontua.
Entre os pontos de maior atenção estão as chamadas garantias cruzadas, quando diferentes ativos da propriedade ficam comprometidos simultaneamente em operações distintas, aumentando o risco de efeito dominó em caso de inadimplência.
Outro ponto considerado sensível são as cláusulas de vencimento antecipado, conhecidas como covenants, que podem acelerar a cobrança integral da dívida diante de descumprimentos contratuais específicos. “Pequenos descumprimentos podem antecipar toda a dívida”, alerta o advogado.
Segundo ele, existe ainda uma diferença importante entre negociar com bancos tradicionais e operar com investidores do mercado financeiro. Enquanto instituições bancárias costumam ter maior histórico de renegociação em momentos de dificuldade, estruturas financeiras privadas tendem a atuar com maior rigidez. “O cuidado central é não negociar apenas taxa, e sim a estrutura da operação. É preciso limitar garantias, prever mecanismos de renegociação e proteger ativos essenciais da fazenda”, enfatiza.
Na avaliação do especialista, a profissionalização financeira do agro será um dos fatores determinantes para definir competitividade nos próximos anos, especialmente em um ambiente de custos elevados, maior volatilidade e crescente sofisticação tecnológica no campo.
Doutor e Mestre em Agronegócio. Especialista em Análise Econômica do Direito e em Direito Processual Civil, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, e de cursos de pós-graduação nas áreas de direito do agronegócio, direito empresarial e direito civil. Advogado especializado em direito do agronegócio



